O sexo só fode a vida e o amor é tão bom que é uma droga.
Dia nublados me deixam pessimista. haha
Que saia o Sol, então.
terça-feira, 9 de setembro de 2008
quinta-feira, 4 de setembro de 2008
até hj ninguém mais soube discutir clarice comigo
e foi a última frase que ele me disse antes de eu entrar no ônibus naquele dia 07 do ano passsado
eu subindo a escadinha pra entrar
ele me chamou
eu virei e ele disse
"léo, volta.
ninguém sabe conversar de clarice comigo"
eu sorri um sorriso triste e entrei no ônibus
e assim acabou.
e foi a última frase que ele me disse antes de eu entrar no ônibus naquele dia 07 do ano passsado
eu subindo a escadinha pra entrar
ele me chamou
eu virei e ele disse
"léo, volta.
ninguém sabe conversar de clarice comigo"
eu sorri um sorriso triste e entrei no ônibus
e assim acabou.
domingo, 13 de julho de 2008
Pare
Guarde tudo para você. Nâo me venha com maniqueísmos baratos ou frases feitas, que não serei seu ventríluquo.
Não me decifre, não tente me conhecer para me entender e achar que, me entendendo, você pode jogar comigo a partida do relacionamento eu-você-e-o-mundo.
Eu posso dar o xeque-mate quando você achar que você é quem manda.
No meu jogo de xadrez, você não é o rei que pode subir a torre e fazer a manobra final.
Eu te surpreendo constantemente e sou capaz de fazer o bispo negro mudar e o permitir que o peão branco dê a volta por cima.
A vida não é simples, tipo preto no branco, como um tabuleiro.
Viva além das tabelas, pise no riscado cinzento, derrube as peças e quebre as regras.
Viver é mais.A vida é apenas eu, você e o imprevisto
Não me decifre, não tente me conhecer para me entender e achar que, me entendendo, você pode jogar comigo a partida do relacionamento eu-você-e-o-mundo.
Eu posso dar o xeque-mate quando você achar que você é quem manda.
No meu jogo de xadrez, você não é o rei que pode subir a torre e fazer a manobra final.
Eu te surpreendo constantemente e sou capaz de fazer o bispo negro mudar e o permitir que o peão branco dê a volta por cima.
A vida não é simples, tipo preto no branco, como um tabuleiro.
Viva além das tabelas, pise no riscado cinzento, derrube as peças e quebre as regras.
Viver é mais.A vida é apenas eu, você e o imprevisto
22 jan 2008
(Des)encontro
Coloco a chave na fechadura da porta do seu apartamento e ouço o som inconfundível do ato. Abro. Dentro, a meia-luz é interrompida pela minha sombra que se reflete na entrada encarpetada pela lâmpada forte que vem do corredor. Você não olha para trás. Está imóvel, recostado na janela de cortinas brancas transparentes. Fuma um cigarro.Sua calça jeans surrada lhe veste perfeitamente. Seu torso está nu e os seus pés descalços.Eu lhe olho por uns segundos que parecem demorar uma eternidade. Minha testa está franzida e, na boca, tenho um chiclete já sem gosto que insisto em não cuspir.Jogo a mochila mole, vazia, na primeira poltrona que encontro em sua sala e as chaves em cima da mesa de vidro. Você olha para o lado e vejo seu perfil, que contrasta com a iluminação do lado de fora do prédio. Lá fora, de onde acabei de vir, choveu. As pessoas pisavam em poças que, momentos atrás, refletiam luzes de Natal em árvores mortas e carros vivos cheio de pessoas semi-vivendo dentro deles. Antes de entrar no prédio, relembro do cheiro de chuva que me fez respirar fundo, umidificando minhas narinas e entrei no terceiro elevador. Justo aquele que não tinha mais nenhum alguém dentro. Sinto como uma contagem regressiva os andares indo do térreo até o décimo segundo andar. Doze longos segundos até você. É mais do que suficiente.Meu cabelos molhados caem no rosto em cachos assimétricos molhando seu carpete. Não enxergo as gotas formarem círculos no chão, mas sei que caem junto com lágrimas. Aqui de dentro a sensação é outra, completamente oposta da rua iluminada. A visão do andar alto me faz olhar baixo.As pessoas pequenas, buzinando e esperando por um atendimento de socorro da ambulância que percorre a noite quente. Suas sirenes ecoam em meus ouvidos enquanto fecho a porta e a luz do corredor vai formando um feixe até sumir por completo. Não tranco sua porta. Se precisar sair correndo dali em disparate, sinto que não poderei encontrar a chave a tempo; ela que está ali, ao lado do vaso de flores que você ia me enviar hoje pela manhã. O cartão ainda está preso entre os dezoito bogarins e me lembro do significado de tais flores. Bogarins significam amor puro e vivo que existe dentro de uma pessoa. Dou um sorriso tímido e tristonho. Passo as mãos pelos cabelos, digo um "hey" e você repete a mesma palavra de três letras sem olhar para trás.Vou ao banheiro, seco um pouco os cabelos e tiro a camisa. Quando volto para a sala, você já terminou seu cigarro. Aposto minhas calças ainda secas que você jogou a bituca na varanda do apartamento do lado, como sempre fez.Está virado de costas para a janela, mas ainda encostado no parapeito. Parece abatido e tem os olhos vermelhos. Com os braços cruzados e olhando para mim, me pergunta se estou bem, enquanto respondo que sim com as mãos nos bolsos.O silêncio não incomoda, porém parece que não sabemos mais nos comunicar pelo olhar ou pelo toque. Ando até o parapeito e me apóio na janela. Você encosta junto comigo enquanto eu coloco um cigarro na boca e me pede um. Tiro um do maço e entrego na sua mão, mas você olha para mim sorrindo e tira o que está na minha boca. Eu sorrio de volta e cutuco levemente seu abdome com o cotovelo. Encosta seu braço direito em mim e eu suspiro. Seus olhos mirando as vidas que acontecem lá embaixo na rua já não estão mais vermelhos. Meu rosto seco já não escorre lágrimas. Começamos a adivinhar vidas e personagens lá de cima. A mulher que passeava com o cachorro tornou-se uma solitária alcóolatra que comprava apetrechos sexuais para usar sozinha enquanto o pai dormia. O fortão que passava de carro conversível era um divorciado que queria aproveitar a vida depois de vinte e cinco anos de casado com a mesma mulher que não quis ter filhos. E a criança que chupava feliz um sorvete de mão dadas com a mãe era apenas uma criança feliz. Sem fingimentos, apenas feliz. Você termina o cigarro primeiro que eu e põe uma música. Bela. Calma. De voz linda e letra precisa. É nossa vida em voz e violão.Você me abraça por trás e meu cigarro no fim cai na sacada do apartamento de baixo. Me convida para dançar e eu também tiro meus tênis úmidos, sentindo o carpete quente e seus lábios ainda frios. Abraçados, ali no meio da sala, você me dá o melhor dos abraços.O que mais se encaixa, o que mais completa o espaço vazio entre mim e outra pessoa.Na janela, uma brisa morna de verão chuvoso entra e balança a fina cortina branca.Eu olho os bogarins, que parecem se mover com a brisa e sorrio. E você tranca a porta...
sábado, 5 de julho de 2008
Eu não saberia dizer como ocorreu. Em um daqueles sonhos acordados, em que o corpo pesa e a alma levita, eu estava submerso. Em sonhos, em vontades que me recuso a reconhecer quando estou de olhos abertos e de boca calada. Eu gritava. Meus pés estavam dormentes, minha cabeça estava rodando e eu estava só. Só. Só isso.
Nada mais. Nada mais me fazia pensar em chegar ao outro lado. Uma música clássica, de violinos leves e cheiro de grama.
Dentes-de-leão esvoaçavam suas penas pétalas, que formavam poeira sem me doer os olhos. Me faziam enxergar. Era Daniel na cova dos leões. Na cova dos dentes de leões. Mordendo, me faziam rir. Sorrindo, me faziam chorar.
O choro de felicidade era passível de qualquer coisa que me levasse para aquele cesto, onde eu via pequenos dedos e uma voz derretida de bebê.
Mexiam-se com o descompasso de meus pés pesados. Seriam meus pés?
Aproximei-me do pequeno cesto de vime, que chacoalhava como que ninado por um ser invisível a olhos nus. Meus olhos choravam lágrima quente. Minhas mãos, frias, latejavam, pulsavam com o ritmo de minhas batidas cardíacas.
Passei as mãos pelos cabelos espessos, senti minhas unhas grossas e limpas cravando em meu couro cabeludo, como se eu quisesse arrancar de minha caixa craniana o que eu penava em não lembrar.
Estava diante de mim. Eu, diante de mim mesmo.
Eu via aquele sorriso largo, aquele cabelo que ainda não havia nascido. Teria eu me parido? Era eu mesmo a ama daquele que eu neguei amor?
Olhei-me. O bebê me sorriu. Custei a acreditar e pensei que estava sonhando. Estava? Um sorriso de adulto fez o pequeno ser me olhar de olhos arregalados. Meu sinal na testa, hoje amarronzado, era pequena mancha vermelha entre sobrancelhas. O que viria a ele? Teria eu a chance de mudar tudo que passei, senti, vivi? Não. Não. Não mudaria uma vírgula.
Seria crueldade minha daquele que, vinte e cinco anos depois, estaria diante da beleza que é viver, enfrentar, sentir, amar, gozar, chorar? Gozaria de vida, sentiria o amor, enfrentaria seu viver? Sim. Mil vezes sim.
Agachei-me diante do meu eu. Reconheci nos dedos gordos e no olhar atento aquilo que fui outrora. Teria nascido sem pecado, como dizem por aí? Estaria pecando por ter sido parido, por escolher que viria ao mundo? Teriam pecado e tomado uma decisão que caberia somente a mim?
Com a delicadeza de quem tinha amor, enfiei as mãos por debaixo de minhas pequenas axilas em um macacão azul e ergui-me. O peso era grande. Carreguei-me no colo durante muito tempo e sei, por duras penas, como é difícil erguer-se depois da dor.
Abracei-me. Pude sentir o cheiro de gente nova, a sensação de uma vida que me pertencia. Aquela vida que, durante muito tempo, reneguei, xinguei, maltratei. Em um longo abraço, o bebê, sem entender nada, ria. Passei as mãos por sua moleira, com a precaução de quem acaricia um cão enfermo e fiz com que meu dedo indicador descesse desde a testa, passasse pela marca de nascença e percorresse o pequeno nariz. No decorrer do movimento, fechou os olhos. Dormiria? Não, não durma! Eu ficaria sozinho se você dormisse e tenho medo. Tenho medo de você dormir e eu acordar do sonho bom de me cuidar.
Carregue-me pela mão de volta à infância que chegaria para você e jamais me retornaria. Faça com que eu reconcilie-me contigo. Que eu não sofra por ter te abandonado, sido para os outros o pai e para ti o carrasco.
Eu apenas diria: “Tudo ficará bem. Estarei sempre contigo, por mais que você pense que te abandonei em alguns momentos”.
Nada mais. Nada mais me fazia pensar em chegar ao outro lado. Uma música clássica, de violinos leves e cheiro de grama.
Dentes-de-leão esvoaçavam suas penas pétalas, que formavam poeira sem me doer os olhos. Me faziam enxergar. Era Daniel na cova dos leões. Na cova dos dentes de leões. Mordendo, me faziam rir. Sorrindo, me faziam chorar.
O choro de felicidade era passível de qualquer coisa que me levasse para aquele cesto, onde eu via pequenos dedos e uma voz derretida de bebê.
Mexiam-se com o descompasso de meus pés pesados. Seriam meus pés?
Aproximei-me do pequeno cesto de vime, que chacoalhava como que ninado por um ser invisível a olhos nus. Meus olhos choravam lágrima quente. Minhas mãos, frias, latejavam, pulsavam com o ritmo de minhas batidas cardíacas.
Passei as mãos pelos cabelos espessos, senti minhas unhas grossas e limpas cravando em meu couro cabeludo, como se eu quisesse arrancar de minha caixa craniana o que eu penava em não lembrar.
Estava diante de mim. Eu, diante de mim mesmo.
Eu via aquele sorriso largo, aquele cabelo que ainda não havia nascido. Teria eu me parido? Era eu mesmo a ama daquele que eu neguei amor?
Olhei-me. O bebê me sorriu. Custei a acreditar e pensei que estava sonhando. Estava? Um sorriso de adulto fez o pequeno ser me olhar de olhos arregalados. Meu sinal na testa, hoje amarronzado, era pequena mancha vermelha entre sobrancelhas. O que viria a ele? Teria eu a chance de mudar tudo que passei, senti, vivi? Não. Não. Não mudaria uma vírgula.
Seria crueldade minha daquele que, vinte e cinco anos depois, estaria diante da beleza que é viver, enfrentar, sentir, amar, gozar, chorar? Gozaria de vida, sentiria o amor, enfrentaria seu viver? Sim. Mil vezes sim.
Agachei-me diante do meu eu. Reconheci nos dedos gordos e no olhar atento aquilo que fui outrora. Teria nascido sem pecado, como dizem por aí? Estaria pecando por ter sido parido, por escolher que viria ao mundo? Teriam pecado e tomado uma decisão que caberia somente a mim?
Com a delicadeza de quem tinha amor, enfiei as mãos por debaixo de minhas pequenas axilas em um macacão azul e ergui-me. O peso era grande. Carreguei-me no colo durante muito tempo e sei, por duras penas, como é difícil erguer-se depois da dor.
Abracei-me. Pude sentir o cheiro de gente nova, a sensação de uma vida que me pertencia. Aquela vida que, durante muito tempo, reneguei, xinguei, maltratei. Em um longo abraço, o bebê, sem entender nada, ria. Passei as mãos por sua moleira, com a precaução de quem acaricia um cão enfermo e fiz com que meu dedo indicador descesse desde a testa, passasse pela marca de nascença e percorresse o pequeno nariz. No decorrer do movimento, fechou os olhos. Dormiria? Não, não durma! Eu ficaria sozinho se você dormisse e tenho medo. Tenho medo de você dormir e eu acordar do sonho bom de me cuidar.
Carregue-me pela mão de volta à infância que chegaria para você e jamais me retornaria. Faça com que eu reconcilie-me contigo. Que eu não sofra por ter te abandonado, sido para os outros o pai e para ti o carrasco.
Eu apenas diria: “Tudo ficará bem. Estarei sempre contigo, por mais que você pense que te abandonei em alguns momentos”.
quarta-feira, 25 de junho de 2008
Miguel
Engraçado como certas coisas inesperadas acontecem conosco e fazem nosso dia fluir muito mais leve.
Estava eu lá, sentado no metrô, de mp3 no ouvido e "O silêncio dos amantes" na mão. Uma mãe, rechonchuda e de olhos verdes senta à minha frente.
Estava eu lá, sentado no metrô, de mp3 no ouvido e "O silêncio dos amantes" na mão. Uma mãe, rechonchuda e de olhos verdes senta à minha frente.
Um pequeno infante acomoda-se ao meu lado, ao mesmo tempo que diz em alto e bom som: "Oi, quem é você?". Tirei o fone do ouvido, fechei o livro marcando a página e sorri, respondendo: "Sou o Leonardo. E você?".
"Eu sou o Miguel. Tudo bem?".
"Eu sou o Miguel. Tudo bem?".
Quatro anos. Sim, ele tinha apenas quatro primaveras de vida. Pequeno e adorável.
Apertei-lhe a sua pequenina mão e ele não soltou. Ficou segurando e acariciando por vários minutos. Senti uma profunda afeição por ele logo de cara. Não pensei "por que esse carinho?". Não deveríamos nos questionar sobre demonstrações de carinho. "Retribuir", "se permitir" e "agradecer" são a tríade que se deve considerar.
Apertei-lhe a sua pequenina mão e ele não soltou. Ficou segurando e acariciando por vários minutos. Senti uma profunda afeição por ele logo de cara. Não pensei "por que esse carinho?". Não deveríamos nos questionar sobre demonstrações de carinho. "Retribuir", "se permitir" e "agradecer" são a tríade que se deve considerar.
Continuei naturalmente o assunto, com perguntas sobre a escola, o que gosta de brincar e outras coisas rotineiras do universo infantil. Falei da minha sobrinha, sempre tão tímida e anti-social.
Ele, lindo, conversava com a naturalidade de quem me conhecia desde bebê.
A mãe, encabulada, pedia para ele parar. "Parar para quê?", pensei. Ela não deveria se desculpar, pois seu filho era o mais nobre daquele metrô, o único que não enfiava uma música no ouvido e cobria o rosto com um livro.
Agreguei ela à nossa conversa, pedindo para ele dizer coisas boas sobre ela, do que ele gostava na mãe dele. "Ela me deixa dormir com ela quando tá frio".
Eu ri alto.
"Que sociável. A senhora já cogitou colocar ele pra fazer teatro?"
Com um sorriso de canto, ela diz: "Ele é altista".
Ele, lindo, conversava com a naturalidade de quem me conhecia desde bebê.
A mãe, encabulada, pedia para ele parar. "Parar para quê?", pensei. Ela não deveria se desculpar, pois seu filho era o mais nobre daquele metrô, o único que não enfiava uma música no ouvido e cobria o rosto com um livro.
Agreguei ela à nossa conversa, pedindo para ele dizer coisas boas sobre ela, do que ele gostava na mãe dele. "Ela me deixa dormir com ela quando tá frio".
Eu ri alto.
"Que sociável. A senhora já cogitou colocar ele pra fazer teatro?"
Com um sorriso de canto, ela diz: "Ele é altista".
Não entrei no mérito da questão.
Preciso pesquisar o que é um altista, pois acreditava que eram crianças distantes, quietas, alheias ao mundo.
O pequeno Miguel fez de mim um leigo.
Tinha sorriso largo, cílios negros e roupas coloridas. Os dentes perfeitos e a pele bem morena, possuía uma simpatia que me impedia de parar de sorrir e lhe olhar.
De repente, tomou-me o livro das mãos e folheava Lya Luft. E lia alto, como me contando uma história. Eu deixava de ser tio e me tornava criança.
De repente, tomou-me o livro das mãos e folheava Lya Luft. E lia alto, como me contando uma história. Eu deixava de ser tio e me tornava criança.
"Ele lê desde os três anos", explicou a mãe.
Lia Lya.
Lia os capítulos, as orelhas, a biografia, a dedicatória, tudo com uma rapidez e desenvoltura que me deixaram pasmo. Nenhuma palavra saía sem entendimento, com dificuldade.
Altista? O que seria isso? Teriam tipos? Miguel era dono do melhor modelo.
Nada lhe era diferente de qualquer outra criança, fosse na fala, na aparência, na altura, no modo de agir e conversar. Socializava com uma facilidade assombrosa.
As marcas de suas folheadas no meu livro que trata da incomunicabilidade entre as pessoas ficarão lá.
Me fez pensar por um momento: seria o altismo do garoto a resolução para o silêncio entre nós? A incomunicabilidade que Lya tratava no livro foi quebrada por ele.
Um homem pequeno que desvendou o livro que tratava do silêncio.
Lia Lya.
Lia os capítulos, as orelhas, a biografia, a dedicatória, tudo com uma rapidez e desenvoltura que me deixaram pasmo. Nenhuma palavra saía sem entendimento, com dificuldade.
Altista? O que seria isso? Teriam tipos? Miguel era dono do melhor modelo.
Nada lhe era diferente de qualquer outra criança, fosse na fala, na aparência, na altura, no modo de agir e conversar. Socializava com uma facilidade assombrosa.
As marcas de suas folheadas no meu livro que trata da incomunicabilidade entre as pessoas ficarão lá.
Me fez pensar por um momento: seria o altismo do garoto a resolução para o silêncio entre nós? A incomunicabilidade que Lya tratava no livro foi quebrada por ele.
Um homem pequeno que desvendou o livro que tratava do silêncio.
sábado, 1 de março de 2008
A
Estava à espera do metrô. Corpo magro, esguio mesmo. Um coque mal-feito deixava seus cabelos brancos desgrenhados, com alguns fios que caíam-lhe sobre a testa. As mãos, de pele branca, seguravam em cruz um livro de Machado de Assis em frente ao corpo. Sua blusa de malha fria, quase transparente, tinha listras desbotadas em azul e amarelo. Na saia cinza, a finalização de um tom opaco. Ela era toda em tons pastéis. Quase crua. Tendência dos idosos.
Seu cheiro de flores - talvez alfazema, quem sabe lavanda - provavelmente veio de suas flores cultivadas em casa.
A pele, manchada pela idade e com veias sobressalentes, davam-lhe um aspecto de vida calejada. Vendo de perto sua fisionomia, era possível observar um buço de pêlos pontudos e um olhar de testa franzida.
Sem aliança no anelar esquerdo. Solteira, talvez viúva.
Na correntinha de prata que trazia no pescoço, uma letra A. Só uma. Talvez não fosse mãe, pensei . Mães de corretinha com letra(s) pendurada(s) no pescoço sempre levam as iniciais de seus filhos. Filho é quase uma anulação da própria vida, ao mesmo tempo que - dizem as mães - lhe completam.
Letra A. Talvez fosse um filho único, me corrigi. Talvez uma filha única que ela perdeu para uma velhice que não a levou antes. Tinha por volta de 80 anos e o olhar perdido.
Seria a letra inicial de seu nome?
A.
A de quê?
Adelina, Ana, Amália, Augusta?
Não sei. O nome poderia ser de velha, aparência também, pele de tom pastel idem.
Porém, ao terem lhe cedido - educadamente e não por mera obrigação - o lugar para sentar-se no vagão cheio de um sábado quente, algo não havia se perdido. Era, de fato, uma idosa muito velhinha, com ossos que pareciam quebrar, mas algo me chamou a atenção: quando viu que era notada dentro do vagão cheio de vidas novas, ela soltou um sorriso largo e exibiu o olhar mais brilhante que vi em anos. Sorriu à caridosa balzaquiana com a vitalidade de uma criança.
E sentou-se com dor nas juntas para continuar a leitura de Machado.
Observação: Nunca saberei que livro ela lia.
Talvez estivesse lendo o conto "Almas agradecidas", de 1871.
Seu cheiro de flores - talvez alfazema, quem sabe lavanda - provavelmente veio de suas flores cultivadas em casa.
A pele, manchada pela idade e com veias sobressalentes, davam-lhe um aspecto de vida calejada. Vendo de perto sua fisionomia, era possível observar um buço de pêlos pontudos e um olhar de testa franzida.
Sem aliança no anelar esquerdo. Solteira, talvez viúva.
Na correntinha de prata que trazia no pescoço, uma letra A. Só uma. Talvez não fosse mãe, pensei . Mães de corretinha com letra(s) pendurada(s) no pescoço sempre levam as iniciais de seus filhos. Filho é quase uma anulação da própria vida, ao mesmo tempo que - dizem as mães - lhe completam.
Letra A. Talvez fosse um filho único, me corrigi. Talvez uma filha única que ela perdeu para uma velhice que não a levou antes. Tinha por volta de 80 anos e o olhar perdido.
Seria a letra inicial de seu nome?
A.
A de quê?
Adelina, Ana, Amália, Augusta?
Não sei. O nome poderia ser de velha, aparência também, pele de tom pastel idem.
Porém, ao terem lhe cedido - educadamente e não por mera obrigação - o lugar para sentar-se no vagão cheio de um sábado quente, algo não havia se perdido. Era, de fato, uma idosa muito velhinha, com ossos que pareciam quebrar, mas algo me chamou a atenção: quando viu que era notada dentro do vagão cheio de vidas novas, ela soltou um sorriso largo e exibiu o olhar mais brilhante que vi em anos. Sorriu à caridosa balzaquiana com a vitalidade de uma criança.
E sentou-se com dor nas juntas para continuar a leitura de Machado.
Observação: Nunca saberei que livro ela lia.
Talvez estivesse lendo o conto "Almas agradecidas", de 1871.
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